WWF Mozambique - Dia Mundial da Conservação

Dia Mundial da Conservação



Posted on 29 July 2016  | 

“É importante olhar para a conservação como parte integrante do desenvolvimento”

-    Anabela Rodrigues, Directora do WWF, por ocasião do Dia Mundial de Conservação da Natureza



O Dia Mundial da Conservação da Natureza foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas e comemora-se a 28 de Julho. Este dia tem como objectivo chamar a atenção para os problemas da conservação da Natureza. Trata-se de uma data importante para a humanidade e, particularmente para o WWF, cuja missão é prevenir a degradação do ambiente natural da terra e construir um futuro em que os humanos vivam em harmonia com a natureza. Para refelctir um pouco sobre os desafios da conservação em Moçambique, convidamos a nossa Directora, Anabela Rodrigues, que considera fundamental a incorporação da conservação da natureza na agenda do desenvolvimento. Siga a entrevista.

 

O que se pode dizer sobre a conservação da Natureza em Moçambique, considerando pontos positivos e negativos.  
 

De facto, existem aspectos positivos e alguns que ainda constituem desafios para aqueles que se envolvem nos esforços de conservação da natureza em Moçambique.
 

Dos aspectos positivos, podemos citar o quadro legal bastante favorável que existe no País, quando comparado com muitos outros países africanos. Em Moçambique, há todo um conjunto de leis que reconhecem que o Governo tem um determinado tipo de responsabilidades em relação à conservação da biodiversidade e, reconhecem-no de uma forma comprometida, tendo como pressuposto o facto de que a conservação da natureza e da biodiversidade constituem a base de desenvolvimento. Ou seja, o Governo assume que não será possível promover um desenvolvimento harmoniso e sustentável sem considerar que um dos seus componentes fundamentais seja preservado.
 

Também notamos, em tempos mais recentes, uma atitude que demonstra a intenção de maior vontade política em relação à conservação da natureza.
 

Porém, pensamos que há ainda um caminho longo por percorrer. Aquilo que manifestamos no quadro legal que temos, os pressupostos politicos, ainda não se manifestam numa prática e realizações consistentes. Por exemplo, a implementação das leis ainda é um problema sério no País. Não se trava, realmente, uma batalha séria para que a Lei constitua um instrumento de gestão do comportamento dos cidadãos e, portanto, continuamos a ter, em certas áreas, actividades ilegais, inaceitáveis e absolutamente insustentáveis. Podemos citar os exemplos da Fauna bravia e das florestas e até, muitas vezes, de casos de investimentos que são feitos, limitando o acesso das comunidades locais aos recursos, o que cria um ambiente de descontentamento como resultado de acesso por exemplo a solos mais pobres e dificulta os esforços de conservação da biodiversidade.
 

Na sua opinião, isso acontece por falta de conhecimento da legislação por parte da população ou por falta de vontade política?
 

Também há falta de conhecimento da legislação por parte das comunidades. Isso é óbvio. Uma das tarefas mais difíceis é assegurar que cada cidadão esteja perfeitamente consciente, não só da legislação, do valor dos próprios recursos, mas também das implicações que podem advir da não conservação desses recursos. E esse conhecimento não é tão vasto como seria de desejar. Eu estou convencida que a conservação da natureza e da biodiversidade, de um modo geral, só pode ser bem sucedida no dia em que cada cidadão tenha, como parte do seu DNA, essa noção clara da absoluta indispensabilidade de respeito pela natureza. Quando essa atitude de uso dentro dos limites da sustentabilidade fizer parte de forma intrínseca da nossa cultura de cidadania.
 

Devo dizer, porém, que neste campo, também sinto que houve avanços. Nunca se falou tanto de fauna, de florestas, de questões relacionadas com o mar, como se fala hoje. Nos órgãos de comunicação social, nos encontros que há ao nível dos distritos, onde participam os membros das administrações locais, fala-se mais de conservação do que se falava no passado.

 

“Mas é óbvio que assegurar que o conhecimento sobre o valor de cada um dos recursos, sobre o impacto de não cuidarmos desses recursos e sobre a legislação que temos, chegue a todos os cidadãos, é a tarefa mais difícil de se alcançar, porque é uma tarefa massiva que tem que se reflectir na educação, no discurso politico e em toda a actividade que desenvolvemos”

 

Tendo em conta que é, por exemplo, na floresta onde encontramos fontes alternativas de energia, o que se pode esperar em termos de desafios, olhando para os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Olha, eu diria que os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável são excelentes e representam um marco histórico no desenvolvimento da sociedade humana. São os melhores que alguma vez se desenharam. Eu sei que há uma tendência de relacionar o trabalho do WWF a apenas alguns dos ODS, caso do 7, 13 e 14, mas eu diria que quase todos eles são indispensáveis para que a conservação da natureza seja bem sucedida.

Podemos começar pela paz. Se não houver paz, o nosso trabalho não tem chance de ser implementado. Não se pode circular, não se pode chegar às zonas mais recônditas do País, não se pode falar com a população em tranquilidade, não se podem implementar projectos no terreno. Daí que achamos que a Paz é um dos ODS que age como pré-condição para que o trabalho de conservação seja desenvolvido.

Indo concretamente à pergunta, a energia, vista em duas perspectivas, é um dos elementos mais críticos para se assegurar o futuro de um desenvolvimento sustentável:

  • O acesso: a energia é uma daquelas coisas que transformam a vida humana e alarga as oportunidades de realização do ser humano sob vários pontos de vista, particularmente no que diz respeito à sua qualidade de vida. Ter luz em casa permite estudar à noite, permite cozinhar com muito mais rapidez, ganhando tempo para outras tarefas;
  • Tipo de energia: as energias fósseis são aquelas que mais impacto tem tido no planeta. Não é por acaso que no ano passado, os ODS foram um dos marcos importantes, ao lado da Conferência sobre as Mudanças Climáticas. É indispensável que a gente parta para uma etapa onde se faz um investimento muito mais sério em energias alternativas. No nosso caso, é energia solar e eólica, que deveriam ser exploradas com muito mais seriedade. Se não o fizermos, continuaremos a enfrentar graves problemas de conservação, tendo em conta que uma das razões para a devastação dos recursos florestais é a produção de carvão.
 
Segundo o WWF, quais são as áreas que precisam de uma intervenção imediata quando se fala da conservação da natureza

Primeiro a Fauna, tendo em conta que é um elemento importante para a promoção de turismo e o turismo é uma das áreas que já teve uma importância maior na economia do País. É lógico que quando não há Paz, o turismo também não avança e, neste momento, estamos já a ter impactos negativos por causa da situação do conflito. Há alguma redução dos números de turistas de safaris de caça, apenas porque existe a perceção de que a situação da segurança no País não é boa. E esta informação já está a circular nos meios organizadores de feiras internacionais. Se não tomarmos conta da nossa fauna perdemos um dos recursos que nos oferece vantagens comparativas.

As florestas também representam aquela área onde é absolutamente indispensável uma intervenção urgente, não só por causa do seu valor mais imediato, mas porque elas prestam um conjunto de serviços ecossistémicos que são fundamentais. As florestas preservam a água, armazenam carbono, são importantes para a qualidade dos solos, nas margens dos rios, elas são fundamentais para evitar cheias mais devastadoras do que se elas não estiverem lá e tudo isso está já a acontecer como resultado de pouco esforço e pouca sensibilidade na preservação das florestas. Estou convencida que algumas cheias que acontecem no País tem sido mais dramáticas porque a vegetação que estava nas margens dos rios foi cortada e quando as cheias vem, há um impacto muito mais devastador do que o que seria o caso se a floresta ribeirinha estivesse no seu lugar.

O mesmo se passa em relação aos mangais, que tem impacto na produção de camarão e reprodução de peixes.

"A outra questão é que nós não devemos olhar para a conservação como algo paralelo ao desenvolvimento, mas sim como parte integrante do processo de planificação do desenvolvimento. Para mim, promover um desenvolvimento que seja sustentável, que use os recursos que temos de forma organizada e dentro de determinados limites, com quotas, regras e procedimentos standardizados, é fundamental para que possamos ter o que se chama “um desenvolvimento verde/azul”.

 

Se não tivermos um desenvolvimento equilibrado, vão aumentar as diferenças entre as classes sociais e a distribuição desses recursos vai ser ainda mais elitista e concentrada num pequeno punhado de pessoas e famílias, a pobreza vai ser agravada e, todos estes factores, não permitem que a utilização da natureza seja feita de forma sustentável.

Que dados estatísticos podem ser avançados em relação à situação da conservação da natureza em Moçambique e qual tem sido a intervenção do WWF ?

Esta é uma área complicada e que representa um dos maiores desafios que o País ainda enfrenta. De um modo geral, não há instituições dedicadas à sistematização tratamento e arquivo de  informações produzidas de maneira a termos estatísticas credíveis. Por isso, é difícil ter acesso imediato a dados que sejam realmente fiáveis ou credíveis. Mas me parece que um dos dados mais fiáveis, neste momento, será o da situação dos elefantes que já atingiu entre 20 a 24 mil animais na última década e que hoje, de acordo com os censos efectuados, diminuiu para a metade. Também parece me haver alguma confiança quando dizemos, por exemplo, que há algumas décadas atrás, tinhamos 51% do território nacional coberto de florestas e hoje não passa de 48%. Mas é muito arriscado dar lhe informação estatística que realmente seja confiável, porque realmente esse é um dos maiores desafios que o País enfrenta. Mesmo em termos de espécies de animais, muitas vezes, a informação que se usa é bastante antiga, alguma dela produzida antes da Independência Nacional.

O WWF tem feito trabalho fundamentalmente nas áreas de florestas, oceanos, água doce e fauna. O trabalho realizado tem contribuído para aumentar o nível de sensibilidade das populações, dos cidadãos em geral, sobre a importância destas áreas de trabalho. O WWF tem contribuído bastante para a produção de alguma informação. Às vezes, nós próprios, com nosso pessoal ou pela contratação de consultores, produzimos relatórios em áreas específicas, tal como foi o caso da fauna (em que, em 2013, produzimos um relatório que dava o ponto de situação em relação ao elefante e rinoceronte) e das florestas, sobre o impacto da exportação ilegal da madeira para a China na economia Moçambicana, relatório feito e, 2015. Temos também algumas intervenções no terreno.

Celebramos, este ano, o 15 aniversário em Moçambique e volvidos esses anos, somos talvez conhecidos como uma das organizações que lutaram pelo estabelecimento das áreas de conservação marinha em Moçambique. Estivemos muito envolvidos no Bazaruto, promovemos a criação do Parque Nacional das Quirimbas, em Cabo-Delgado, das Ilhas Primeiras & Segundas, em Nampula e Zambézia e depois os Ramsar (áreas de importância internacional ao abrigo da Convenção de Ramsar, assinada em 1971), como é o caso do Delta do Zambeze, que recentemente teve a sua margem norte, também reconhecida como Ramsar. O mesmo aconteceu com o Lago Niassa. O WWF também esteve envolvido na cogestão dos parques e, gradualmente, foi se retirando, porém, mantendo uma presença ao nível da monitoria, tal como tem estado a acontecer no Parque Nacional das Quirimbas, onde desenvolvemos a monitoria das Tartarugas e santuários de peixes. Algum outro trabalho fazemo-lo na área do quadro legal, em que participamos na revisão da legislação, na sua disseminação e na promoção de debates sobre o assunto, entre outras áreas.

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