O dia a dia de uma agente comunitária na monitoria dos recursos naturais | WWF Mozambique

O dia a dia de uma agente comunitária na monitoria dos recursos naturais

Posted on
01 August 2020
O sol ergueu-se e o bater melodioso das ondas do mar acorda o dia. Mais uma manhã de esperança para os incansáveis desbravadores do oceano que preparam os instrumentos para o árduo trabalho de colheita dos frutos do mar na comunidade de Sangage.

Entre as dunas de areia que hipnotizam o olhar com o seu brilho, os passos firmes e apressados desses homens unidos pelo mesmo propósito vão abrindo caminhos estreitos até ao mar.

Do outro lado da pequena vila, ouvem-se saudações endereçadas aos vizinhos e amigos “Sallam Alaikum”. “Que a paz esteja consigo” é o que desejam essas vozes matinais.

Na sua rotina habitual pelas 5 da manhã, a jovem Ancha Assane carrega o filho nas costas e dá início a mais uma jornada doméstica. Como de costume prioriza a ida à fontenária, onde numa longa fila aguarda calmamente pela sua vez para encher o balde, antes que o sol escaldante se faça intenso. De regresso a casa continua seus afazeres, varrendo o quintal, limpando a casa, lavando a loiça e preparando a refeição para o seu bébé. Por fim prepara-se para mais um dia de patrulha. 

Em Setembro de 2019, Ancha apresentou-se como voluntária no grupo de onde seria feita a selecção de novos agentes SMOG – Sistema de Monitoria Orientado para a Gestão. Foi selecionada.

Movida pela curiosidade em aprender sobre os recursos marinhos e costeiros de onde o seu marido trás sustento para a família, juntou-se ao grupo dos agentes SMOG da APAIPS e participou no treinamento sobre colecta de dados. Na calorosa convivência com os agentes mais experientes que participaram no curso para revitalizar os seus conhecimentos, Ancha sentiu-se cada vez mais motivada a envolver-se no trabalho de sensibilização da sua comunidade para a conservação dos recursos naturais.

Com o encher das marés os pescadores retornam à vila nos seus barcos de madeira, com as longas redes enroladas e com os tão cobiçados produtos da pesca. Ancha vai ao seu encontro, percorrendo alguns quilómetros de sua casa até ao centro de pesca, contemplando a beleza da costa que a viu crescer. Todos os dias nas suas patrulhas diárias, ela regista no seu manual, os dados da pesca comunitária de margem, da pesca comunitária de barco, as evidências sobre actividades ilegais que possa encontrar, os dados das actividades colectoras e as observações de animais especiais, como é o caso do tubarão ou da tartaruga. No final do mês, juntamente com os outros agentes de monitoria, Ancha faz o balanço do esforço de pesca exercido e do tipo de pescado capturado pelos pescadores.

Como em qualquer outra actividade tem enfrentado desafios diários, no seu empenho de consciencialização dos pescadores locais para o abandono de artes nocivas que muitas vezes resulta na pesca acidental de animais protegidos e ameaçados e para abdicarem da pesca intencional dessas mesmas espécies como é o caso de tubarões, raias e tartarugas. Ancha está sempre atenta aos sinais de uma crescente procura por estes animais, e tem constatado que há um aumento do número de infrações nesta comunidade. Mas ela é persistente e procura o apoio do sector de pescas, e motiva o Comité Comunitário de Gestão de Recursos Naturais e o CCP a ajudá-la na luta por uma mudança de comportamento.

No final de cada patrulha, Ancha organiza de novo os seus materiais e despede-se singelamente dos pescadores locais para retomar o percurso de volta à sua casa, e finalizar as tarefas domésticas com o sentimento de missão cumprida.
 

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