Posicionamento do WWF sobre o encalhamento de golfinhos no Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto | WWF Mozambique

Posicionamento do WWF sobre o encalhamento de golfinhos no Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto

Posted on
26 February 2021


O WWF Moçambique tomou conhecimento da triste notícia acerca da morte de 111 golfinhos rotadores (Stenella longirostris) encalhados no Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto (na Ponta Dom Carlos e na costa Oeste) nos dias 21 e 23 de Fevereiro de 2021.

De acordo com a informação oficial da Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC) e do Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto (PNAB) , a investigação das causas da morte está ainda em curso. Observações no local indicam que os golfinhos não tinham sinais externos de ferimento e a observação a olho nú das vísceras também não deu indicações sobre as potenciais causas de morte. No entanto, as equipas da ANAC/PNAB, que estão no local, recolheram diversas amostras de tecido, fezes, água do mar, entre outros, para efectuar todo o tipo de análises laboratoriais para ajudar a investigar as causas da morte dos golfinhos. Adicionalmente, uma equipa composta por técnicos da ANAC, Instituto Nacional de Investigação Pesqueira (IIP) e Universidade Eduardo Mondlane (UEM) dirigiu-se ao local para apoiar na investigação no dia 24 de Fevereiro.

O encalhamento/mortalidade em massa (entre três e centenas de indivíduos) de mamíferos marinhos (como baleias e golfinhos) acontece frequentemente em todo o mundo há milhares de anos, mas as causas não apresentam uma explicação única e são difíceis de determinar. Estatisticamente, só em 50% dos eventos é que é possível determinar as causas do encalhamento . Algumas das causas mais comuns associadas ao encalhamento em massa são o seu comportamento de grupo (as ligações sociais fortes podem levar a que o grupo siga um membro doente ou desorientado), envenenamento por inalação de toxinas ou por ingestão de alimento contaminado com toxinas de algas nocivas (conhecido por Harmfull Algae Bloom ou HAB), doenças, colisões com navios/barcos, emaranhamento em artes de pesca, erros ou confusão na navegação em águas pouco profundas (por causa de mau tempo e mares bravos, perseguição de presas, escapar de grandes predadores, etc.) e interferências no sistema sonar que estes animais usam para navegação (topografia pouco familiar - como pontas lisas e fundos marinhos com inclinação suave, sondas e ruídos induzidos pelo homem – ex. equipamentos militares ou técnicas usadas na pesquisa e exploração de petróleo e gás, etc.

Eventos recentes na região incluem o caso de golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) que encalharam em Outubro e Abril de 2006, na Ilha do Bazaruto (46) e em Zanzibar (cerca de 600), respectivamente, cuja investigação das causas foi inconclusiva . No mesmo ano, em 2008, cerca de 100 golfinhos cabeça-de-melão (Peponocephala electra) encalharam na Lagoa Loza, em Madagáscar. Depois de uma investigação pormenorizada levada a cabo por uma equipa de investigação independente, em 2013 foi concluído que este evento foi causado por um estímulo sonoro – o uso de uma eco-sonda usada por uma empresa petrolífera para mapear o fundo marinho. Este foi o primeiro caso onde se provou a ligação entre o encalhamento em massa e o uso de sistemas de sondas de mapeamento de alta-frequência . Em Maio de 2009, 55 falsas-orcas (Pseudorca crassidens) encalharam numa praia próximo a Cape Town, na África do Sul, das quais pelo menos 41 morreram. As observações no local e das carcaças não apresentaram a indicação das causas e os resultados das diversas amostras colectadas não são conhecidos.

O WWF trabalha há mais de 50 anos para salvaguardar o futuro dos golfinhos e baleias, reduzindo os múltiplos impactos cumulativos que eles enfrentam nos nossos oceanos e tem uma iniciativa - The WWF Cetacean Initiative - que, em coordenação com outras organizações, pretende promover a conservação de cetáceos em todo mundo, reduzindo as ameaças da pesca e transporte marítimo, e protecção de habitats críticos para estes mamíferos nas diversas fases do ciclo de vida.

O WWF Moçambique tem apoiado no estabelecimento e gestão das áreas de conservação marinhas em Moçambique, na conservação da sua biodiversidade e na gestão comunitária dos recursos naturais, desde a sua criação, há 20 anos atrás. O WWF Moçambique trabalhou entre 1994 e 2010 no PNAB, e após uma interrupção, voltou a iniciar as suas actividades na província de Inhambane, no final de 2020. Desta vez, o foco é na melhoria das condições de vida dos pescadores e das práticas de pesca nos distritos de Govuro, Vilankulos e Massinga, por forma a garantir o envolvimento comunitário na conservação da biodiversidade marinha dos arredores do PNAB e aliviar a pressão exercida sobre esta área de conservação. Estes aspectos fazem parte do Plano estratégico do WWF, que também inclui os golfinhos e baleias como espécies de grande importância para as suas acções de conservação inclusiva de espécies e habitats (o 1º Pilar no mais recente Plano Estratégico do WWF Moçambique 2020-2030).

Sendo o PNAB uma área de grande importância biológica, com o qual o WWF possui afinidade e ligação histórica, e sendo os golfinhos animais protegidos e de grande relevância em Moçambique, o WWF espera que os trabalhos de investigação em curso analisem todas as evidências, amostras e causas possíveis e que tragam resultados conclusivos sobre as causas deste incidente. Cientes de que estas investigações não são fáceis, o WWF prontifica-se a providenciar apoio à ANAC/PNAB caso considerem necessário, envolvendo os especialistas em mamíferos marinhos da rede do WWF na investigação e na análise das amostras, entre outros. O WWF incentiva também a participação de todas as organizações e instituições com capacidade para apoiar na investigação. Para terminar, queremos ressaltar que, nestes casos, a ausência de evidências não quer dizer que estejamos perante a ausência de uma causa . Por esta razão apelamos ao uso do princípio precaucionário de modo a apoiar a conservação destes animais em Moçambique.

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